Ser feliz não é difícil. Difícil é ser feliz.

Tem tanto tempo que exercito o desgosto poético pela existência, que me dizer feliz com a vida tem o teor de um banho de Nutella com marshmallow. Deve ter começado em 2007, quando entendi que era poeta. Mas tenho memória de ter proferido a seguinte pérola para uma colega de trabalho lá pelos idos de 2004: “Se eu soubesse que estaria assim aos 23, teria me matado aos 18”. A frase gerou comoção e nunca mais saiu da minha cabeça. Dezoito anos depois, cheguei ao ponto em que brincar de Romantismo não me cabe mais. O problema é que andar nos trilhos da felicidade tem suas implicações.

Facilmente me perco em meu universo de Pink Floyd, Nirvana, The Doors, autores russos e de Terror clássico. Basta um tempinho para leitura ou música, e a desgraça lírica desaba sobre mim, ativando o gatilho de uma metralhadora giratória de ansiedade. Esses dias, cansado de ficar numa “bad” decadentista, decidi trocar o repertório para algo mais edificante.

A primeira sensação foi próxima a vestir fantasia de dinossauro Barney em festa de criança. Um pingo de arco-íris lutava contra o piche encobrindo as paredes de minha mente. A sempre espocante frase de efeito “não demos certo como espécie” gritava contra um “está tudo bem, vai dar tudo certo” em letreiro neon. Um robusto senso crítico digladiava a claves com pregos contra algum conformismo de mãos limpas necessário para aceitar a vida como ela é.

Que não preciso aceitar a vida como ela é para ser feliz é argumento inútil. Essa vontade louca de subir na vida, alcançar metas, mudar o mundo, fazer revolução e traçar objetivos é tão incômoda quanto reconhecer fracassos pessoais. Nem vem com essa!

O passar dos dias nessa vibração trouxe um alívio na respiração pesada do ansioso aqui. Parece mentira, mas essas coisas dão certo – pelo menos em mentes fracas como a minha. Então, me perguntei: o que vou ler? Tinha na lista Álvares de Azevedo e Lovecraft. Tive medo. Dei uma boa olhada na prateleira: Terror, Jessé Souza, livros de Ocultismo, russos e beatniks. Achei melhor não arriscar. Fiquei sem ler por uns dias.

Fui para o Youtube e achei algumas coisas. Tem tudo lá, né? Eu até gosto de Clóvis de Barros Filho, Leandro Karnal e Luis Felipe Pondé. O problema é saber que eles jogam para a plateia e para os contratantes. Depois de alguns minutos, acabou a festa da dopamina.

Lembrei das literaturas em produção. Tudo do quinto dos infernos. Coisas tenebrosas a escrever e a publicar. Uma longa lista de velhos textos a terminar recendendo a minha perspectiva cinza de mundo. Bateu uma vontade de começar tudo de novo. Mas escrever o quê? Histórias banais de amor? Crônicas de autoajuda? Contos de felicidade? Dá até um arrepiozinho de vergonha.

Me vi cercado pela felicidade delivery in box. Um cara ansioso, que não toma remédios e tende a alimentar negativismos para não secar a verve não tem tempo para terapias, reformas íntimas, constelações. Ou a coisa anda ou para.

A luta, então, passou a ser pela gestão da cabeça: o escritor contra o “vivedor”. Dizer coisas legais, evitar conversas profundas, deixar a política de lado um pouco, aceitar alguns fracassos e aprender a se divertir com qualquer coisa.

Devem me restar uns trinta anos de vida, espero que mais. Quero vive-los bem, dentro dessa coisa que se chama “felicidade”. Talvez a felicidade seja rasinha mesmo, do tipo “deixa de boa, nem pensa nisso”. Há respostas na Filosofia. Na Psicologia, então, devem fabricar uma resposta por nova publicação de “crescimento pessoal”. Passo longe da Psicanálise. Na música, tudo que não é existencialista é histriônico. As religiões têm de monte. Mas e pra mim, o que é que tem?

Nunca imaginei que ser feliz beirasse o impossível.

Rody Cáceres

Professor e Escritor dos livros: “A Barata Pacifista” e “O Curandeiro“.

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Foto: Pixabay

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