Meu coração vai assim…

Conheço mulheres empoderadas. Mulheres de diversos tempos, que tiveram suas maneiras de alcançar o empoderamento, dentro das possibilidades de sua era.

Minha avó era uma dessas, gaúcha de Piratini, nascida na década de vinte, parteira de tesoura, balde de água quente e tudo mais. Andava a cavalo, acordava com o sol e cuidava de porcos, galinhas e vacas. Casou jovem, mudou-se para uma cidade pouca coisa maior e ajudou no sustento como costureira. Meu avô, que não era homem mau, mas era homem de sua época, tomava uns tragos extras e chegava mais macho em casa. Um dia o machão encrencou com a máquina de costura da esposa e arrebentou a correia com a mão. Do tipo que não chora no canto, minha vó catou o resto da correia da máquina e lanhou o lombo do velho bêbado. Ele nunca mais se meteu com ela.

Isso bastaria para fazer desta mulher uma valente, mas vou além…

Foi nos anos setenta.

Um membro da família, que ouvia uns Beatles e ingeria umas substâncias diferenciadas, teve um acesso de ciúmes e começou a atacar toda a rua com um facão. Dona Marina, de sangue temiscerianno quente, largou o que estava fazendo e foi fazer o que podia. O animal já tinha matado o próprio filho e encurralado minha saudosa tia Dalva, irmã da vó Marina. A Mulher-Maravilha do extremo sul pulou em cima do louco, que era construtor, homem forte, e o segurou até que chegasse ajuda. Ela levou uns pontos no braço, teve hematomas, mas conseguiu conter o maluco e salvou um número de vidas que só se supõe, mas foram muitas. Seus machucados não eram tão evidentes quanto os rasgos na alma pela perda violenta do sobrinho-neto.

A família não toca no assunto. Eu não consigo evitar. Desculpas a quem lê.

No final da vida, minha velha lutava contra diversas doenças que dizia ter pegado nos anos trabalhando em fábrica de peixe. Para quem não sabe, antigamente, precisava-se de pessoas para cortar, selecionar e encaixotar os peixes. Ela fazia isso, no meio do gelo, inverno e verão, de mãos limpas e peito aberto, seus quase cinquenta quilos de empoderamento anônimo carregando caixas e caixas de quilos e quilos de pescado.

Quando morreu, de tudo o que tinha e mais alguns desgostos matrimoniais, não lamentava a caminhada. Viveu tudo o que pode, foi de tudo um pouco e deixou um buraco irreparável. Era uma casa sem piso, um templo sem deusa.

Eu falo pouco nela, penso pouco, talvez por ter me distanciado demais do garoto que perdeu o chão com sua partida. Mas veio um amigo e me pediu que escrevesse. Eu decidi desfolhar meu coração. Logo na primeira pétala estava minha velha Marina, que me deixou órfão de avó muito cedo.

Eu gostaria que ela pudesse ler a frase que pensei para finalizar o texto: mulher como essa eu nunca conheci na vida.

Meu coração vai assim, vó. Segura aí. E me balança pra dormir.

Rody Caceres

Fonte: http://fugitivoliterario.com.br/blog-da-fugitivo/meu-coração-vai-assim

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