Exposição reforça mobilização pela repatriação de objetos sagrados do Batuque
Material histórico, atualmente sob a guarda de um museu na Alemanha, integra movimento de reparação e reconhecimento do patrimônio afro-religioso gaúcho, que pretende ampliar o debate em comunidades de terreiro de três cidades
A história de 67 objetos sagrados do Batuque, retirados do Rio Grande do Sul no final do século XIX e atualmente sob a guarda do Museu Etnológico de Berlim, na Alemanha, voltou a ser apresentada ao público durante a programação da Semana de Combate à Intolerância Religiosa. Desta vez, a pesquisa histórica foi exposta em banners no interior do Mercado Público do Rio Grande, ampliando o acesso da população a um episódio marcado pela violência contra as manifestações religiosas de matriz africana.
A exposição integra um movimento que busca o reconhecimento desse patrimônio, a reparação histórica e a repatriação dos objetos para o Rio Grande do Sul. A iniciativa reúne pesquisadores e representantes da comunidade negra e das religiões de matriz africana. No ano passado, o trabalho foi apresentado publicamente na Casa D’Oxum Taladê, quando historiadores compartilharam informações sobre a origem e a trajetória da coleção.
De acordo com o historiador e professor do Instituto Federal, campus Pelotas, Vinícius Pereira de Oliveira, conhecido na religião de matriz africana como Vinícius de Aganju, que montou a exposição, os objetos foram apreendidos pela polícia durante um ritual religioso, possivelmente no final da década de 1870. A cerimônia teria reunido cerca de 100 pessoas e sido conduzida por uma liderança negra. Depois de permanecerem na delegacia, os artefatos foram adquiridos por um comerciante alemão que atuava no Rio Grande do Sul e posteriormente encaminhados à Alemanha, sob a justificativa de uma doação à Santa Casa de Misericórdia.
Os 67 itens estão armazenados no Museu Etnológico de Berlim, desde 1880, e, conforme o historiador, raramente foram expostos e ainda não receberam estudos aprofundados. “São objetos sagrados, considerados ‘vivos’ pelas comunidades religiosas, por carregarem axé e representarem a ligação com o sagrado.” A proposta do movimento é, inclusive, alterar a identificação da coleção no museu, atualmente denominada Coleção Pitzker, em referência ao comerciante envolvido no processo. A denominação defendida é Coleção Batuque, reconhecendo sua origem e seu significado religioso e cultural.
Avanços na mobilização
Desde o início da mobilização, o grupo realizou encontros e atividades em comunidades de terreiro de cidades gaúchas, incluindo Rio Grande e Porto Alegre. Entre os avanços mais recentes está o encaminhamento de um dossiê ao Ministério da Igualdade Racial, que acionou o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). O documento reúne pesquisas sobre a trajetória dos objetos, a repressão às manifestações afro-religiosas no período da escravidão e no pós-abolição, além de registros sobre o posicionamento das comunidades de terreiro em relação à repatriação.
A partir desse encaminhamento, o Itamaraty deverá conduzir as tratativas diplomáticas entre os governos brasileiro e alemão e o Museu Etnológico de Berlim. Paralelamente, o movimento articulou com o governo do Rio Grande do Sul a indicação de uma instituição museológica que atenda às normas internacionais de conservação, requisito necessário para receber e preservar os objetos caso a repatriação seja concretizada.
Exposição nos terreiros
Outra conquista importante ocorreu em 2026, com a aprovação de um projeto em edital de fomento à cultura da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), lançado pelo governo estadual. Os recursos permitirão ampliar a discussão pública sobre a coleção, com atividades previstas em 14 comunidades de terreiro de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre.
A programação deverá incluir a circulação da exposição, rodas de conversa e atividades de formação, com início previsto entre fevereiro e março de 2027. A proposta também prevê a produção de novos conjuntos de banners, fotografias impressas em alta qualidade e estruturas de exposição, que permanecerão nas três cidades após o encerramento do projeto.
De acordo com Oliveira, a prioridade é garantir que as próprias comunidades de terreiro participem ativamente da construção desse debate e tenham autonomia para dar continuidade à divulgação da história. A intenção é que o material possa circular posteriormente em outros espaços, inclusive escolas e ambientes de discussão pública, ampliando o conhecimento sobre esse patrimônio.
Para o historiador, os pesquisadores e integrantes do movimento são articuladores dessa iniciativa, mas o patrimônio pertence às comunidades que preservam sua história e seus significados. Por isso, a mobilização busca assegurar que a discussão sobre o retorno dos objetos seja conduzida com a participação e o protagonismo da comunidade negra e das tradições religiosas às quais eles pertencem.
Comunicação Prefeitura Municipal do Rio Grande
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