Qual o preço da paz de espírito?

Já não tenho mais certeza se meus pares neste planeta buscam algo parecido com uma “paz de espírito”, seja lá o que essa expressão valha. O estado de amortecimento consumista e histriônico não tem permitido reflexões profundas sobre o tema.

Paz de espírito, em sua versão urbana, diz respeito a contas pagas e dinheiro sobrando para dar pipoca aos macacos no domingo, não importa o quanto tenhamos que sofrer por este prazer momentâneo.

São horas e horas executando tarefas repetitivas ou lutando contra idiossincrasias mil de pessoas que em nenhuma situação possível fariam parte de sua lista de afetos. Ao final do mês, caso sobre um tostão, um demorado passeio no shopping desejando todas as vitrines nos satisfaz como ser humano. E é isso.

É isso mesmo?

Lembro com saudades da paz de espírito real: tempo livre para vagabundear, ver um filme diferentão, ouvir um disco inteiro, fazer amor sem sono e não depender de ansiolíticos ou derivados da passiflora. Durou a adolescência. Então, a vida adulta passou atropelando tudo.

Nada em absoluto pretende deixar-lhe em paz. Quer uma casa? Alugue ou compre – de qualquer maneira você vai viver pelo boleto do fim do mês. Quer casar ou viver a dois ou a três? Prepare-se para água, luz e gás ao preço que o governo estipular. Quer ter filhos? Lute contra o adestramento dos Lucas Netos da vida, trabalhe para manter as crianças na escola e prepare-se para acordar muito cedo quando precisar de um pediatra.

E a velhice? Se você chegar nela, saiba que o estado e o mercado têm quase nada para os velhos que não seja fralda geriátrica confortável, Corega e empréstimo consignado. Talvez um consórcio para o velório, um financiamento de terreno no cemitério. E a vida termina no início da velhice. A partir daí, tudo é preparação para a morte.

Aqui já contamos uma vida inteira de caos. Mas a vida é caos, como dizem uns que conheço. Poderia/deveria não ser.

Fora os afetos, sempre insubstituíveis, se eu quisesse mais paz em meus dias, começaria reduzindo minha renda com menos horas de trabalho, implicando na redução dos apêndices de entretenimento que carrego; promoveria um alienamento temático, abandonando as conversas sobre qualquer próxima eleição; e abandonaria aas redes sociais, o relativo ao inferno na Terra. E não permitiria verbos no imperativo direcionados a mim.

Em um mês eu seria o homem mais tranquilo do bairro e o mais procurado pelos credores. Mais um pouco e o espírito brasileiro convenceria minha família de que sou um vagabundo. Os poucos leitores de meus textos se reduziriam a zero. Meu jeito rebelde minaria o restante de horas ocupadas que abracei. E em anos, deixaria de existir, mesmo vivo. Mas estaria em paz , caminhando livremente pelas praças com a aura iluminada e expressão pouco vista no ocidente.

Meus pares talvez me invejasem tacitamente, conversando sobre mim em seus encontros em volta de mesas fartas no cartão de crédito. “O Rodrigo pirou, né?” “É. Vi ele ontem vagando pela rua.” “Nunca me pareceu muito certo da cabeça.” “A esposa já tem até outro mais comprometido com a vida.”

Meu substituto romântico seria bem adestrado, já que a oferta é grande, e a ex-esposa afirmaria ser o ex-marido um “cara alternativo” que não serve para casar.  Tentativas bem sucedidas de substituir a figura paterna por alguém mais normal e a vida seguiria a narrativa ordinária do sistema.

Mãezinha me exortaria diariamente sobre os erros cometidos. Em sua fé, pediria a Deus um caminho para o filho rebelde. Eu argumentaria que Deus é paz, ou pode ser paz, mas o romance cristão que compreende toda a existência da humanidade nunca permitiria que Deus se alegrasse com os vagabundos. E o existir se apoiaria em uma filosofia milenar qualquer sobre desapego material.

É alto o preço, não?

Puxa vida, eu sou um deles!

Rody Cáceres

Professor e Escritor dos livros: “A Barata Pacifista” e “O Curandeiro“.

Siga no Instagram: @rodycaceresescritor

Foto: Pixabay

One thought on “Qual o preço da paz de espírito?

  • 17 de maio de 2022 em 01:12
    Permalink

    Como diria Bauman, a liquidez e sua volatilidade vieram desorganizar todas as esferas da vida social como o amor, a cultura, o trabalho, etc
    ” e a paz de espírito”

    Resposta

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